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3 de Junho de 2020

Estupro coletivo na novela Em Família e o desempoderamento das vítimas

DellaCella Souza Advogados, Advogado
há 6 anos

Publicado por Jarid Arraes

Estupro coletivo na novela Em Famlia e o desempoderamento das vtimas

No última segunda-feira (10), uma cena de estupro coletivo foi exibida na novela “Em Família”, gerando uma onda de comentários aturdidos diante do terror que, para muitos, chegou sem aviso. Manoel Carlos, autor da nova novela, parece ter uma predileção por abordar a violência contra a mulher em seus enredos. No entanto, apesar de suas alegadas boas intenções, a mais recente personagem a experimentar a realidade da misoginia não causa otimismo a quem já debate questões como estupro e aborto.

A desconfiança que parte das ativistas feministas e de outros aliados na luta contra o machismo acontece porque, ao contrário do que Manoel Carlos defende, o caso de estupro não terá um desfecho socialmente responsável. Acontece que a mulher estuprada, Neidinha, engravidará do estupro, manterá o feto e, anos depois, precisará lidar com sua filha em busca do “pai”. Embora seja garantia da lei brasileira, mulheres que engravidaram devido a estupro encontram uma dificuldade enorme na hora de conseguir efetivar o aborto com segurança e auxílio do SUS. Há incontáveis casos em que mulheres negras e pobres são obrigadas a dar continuidade à gestação, sendo intimidadas e pressionadas por equipes de saúde e religiosos de sua comunidade.

Neidinha também é mulher negra, mais uma que é retratada de forma negativa, dentro de um contexto revoltante – e o seu estupro tem alguns pontos pelos quais devemos, no mínimo, refletir com seriedade. Um deles é a classificação indicativa da novela, pois “Em Família” foi categorizada como não recomendada para menores de 12 anos, limite que indica insinuações de sexo e alguns tipos de violência. No entanto, quando o assunto é estupro, a classificação sobe para 16 anos.

O estupro não é qualquer violência. Não é a toa que tantos filmes são amplamente reconhecidos como “muito pesados” por mostrarem cenas detalhadas de estupro. O que Neidinha sofreu na Globo foi verdadeiramente perturbador – os gritos podiam ser ouvidos de longe e suas expressões faciais causaram extremo mal estar em milhares de pessoas ao redor do país. Ainda mais triste são os diversos relatos de mulheres vítimas de estupro, que foram pegas de surpresa pelo capítulo e tiveram que lidar com uma carga pesada de estresse pós-traumático, lembranças terríveis e sofrimento emocional.

Estupro coletivo na novela Em Famlia e o desempoderamento das vtimas

Se Manoel Carlos é contrário ao aborto em casos de estupro, deveria, no mínimo, pensar no público que assiste às suas novelas. O desserviço que ele está fazendo é gritante. A realidade em nada se parece com a fantasia romantizada que pretende exibir, pois o desfecho feliz da criança gerada por um estupro, que cresce fazendo aulas de violino em um lar equilibrado, simplesmente não é fato social com estatísticas palpáveis. Mas talvez o autor se lembre de outra personagem sua, vítima de violência doméstica, interpretada por Helena Ranaldi: Raquel, da antiga novela “Mulheres Apaixonadas”, apanhou durante meses até que tomasse coragem de fazer a denúncia. Na mesma semana, as delegacias registraram um aumento de 25% no número de mulheres que procuraram as autoridades para denunciar seus agressores. Lamentavelmente, Neidinha não servirá de exemplo para que vítimas de estupro se sintam empoderadas e tenham coragem para denunciar, pelo contrário, até mesmo o direito conquistado de interromper a gravidez é negligenciado. É uma grande irrresponsabilidade social não informar às mulheres a respeito de seus direitos de forma honesta.

O fato é que não podemos ignorar o poder que as novelas possuem sobre a audiência; o povo assiste, comenta, copia gírias e roupas e se inspira nessas tramas para enfrentar também os seus próprios desafios diários. Além de fazer com que uma quantidade enorme de mulheres assistam cenas inadequadas, extremamente violentas, ainda precisamos nos atentar para a perpetuação da misoginia, pois o caso de Neidinha gera também um teor agressivo de culpabilização da vítima. Pouquíssimas mulheres conseguem reunir a coragem para denunciar o estupro sofrido e solicitar o aborto – legal e gratuito – para não ter um filho indesejado. É inaceitável que tantas mulheres continuem a reviver seus traumas sem que sequer recebam algum auxílio. A naturalização da violência sexual é um problema severo que a novela “Em Família” continua a perpetuar.

Fonte: http://revistaforum.com.br/questaodegenero/2014/02/12/estupro-coletivo-na-novela-em-familiaeo-desempoderamento-das-vitimas/

258 Comentários

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Magnífico este artigo! Parabéns!!! Infelizmente os meios de comunicação, embora saibam o poder que têm, demonstram total descaso pelos dramas sociais de nosso país. As emissoras responsáveis e os escritores das telenovelas e programas afins, mostram uma realidade dourada pela fantasia que vai de encontro com a realidade vivida pela população criando uma ilusão, no mínimo, cruel! Seria excelente se, ao contrário, estes meios de comunicação fossem utilizados para informar com responsabilidade e verdade e não alienar as pessoas que os acompanham. continuar lendo

Rosemar o SISTEMA é podre e o descaso é geral. Começa pela nossa democracia MASCARADA e pela ineficiência e má vontade de alguns atores do direito, passando pelas instituições de ensino que estão focadas muitas vezes em apenas SEGUIR adiante com nosso modelo ARCAICO de educação...Enfim concordo plenamente que os escritores, bem como qualquer pessoa que de alguma forma detém esse poder deveriam ser mais responsáveis e não apenas se projetarem como profissionais. Sobretudo a culpa (se assim posso dizer) é de TODOS nós pela nossa COVARDIA em dar um basta nessa MENTIRA TODA travestida de LIBERDADE de EXPRESSÃO. continuar lendo

No mínimo inconveniente a forma que o autor tratou o drama, sem informar o que seria tratado (estupro). Até pelo clima gerado na cena, afeta crianças que não tem idade para assimilar o que aconteceu. continuar lendo

Na verdade as crianças não deveriam assistir a novela! continuar lendo

o horario em que se passa a novela não é adequado para crianças e a emissora deixa bem claro a censura que é de acima de 12 anos.então o autor não tem culpa se alguma criança assistiu continuar lendo

Parabéns Nelci Gomes pelo artigo. Não assisto novelas, mas concordo com o que a senhora escreveu. Acredito ainda que tanto emissora quanto autor deveria ser penalizados (se é que existe Lei que o possa fazer) quanto a questão da classificação (está classificado em 12 anos, quando exibe cenas, que ao meu ver, não deveriam ser liberadas mesmo para maiores de 16). continuar lendo

Agora é que vamos ver até aonde a intervenção do Ministério Público vai. É sabido que a Globo sempre compactuou com a ignorância da massa, pois leva muita "comissão" por trás disso. Lamentável! E sem respeitar, de fato, a classificação etária. Vamos lá, MP, nos mostre que ainda há seriedade e moralidade neste país! continuar lendo

Nelci, achei bem interessante seu artigo, porem percebo que mesmo que o autor tivesse criado uma personagem que neste caso soubesse sobre seus direito no caso de aborto por estupro ele estaria indo contra muitas pessoas religiosas, e creio que o debate seria muito, mais muito maior, isso se, ele não tivesse que dar um final nada bom a personagem, afinal, tirar uma vida pesa e muito, mesmo sendo um direito conquistado.
Sendo um tema polemico, creio que das duas maneiras ele iria ferir as mulheres que já passaram por isso, porque o fato já é traumatizante, então abortando ou não, sempre que houver uma cena na tv, ou um fato creio que as mulheres que passaram por isso, irão sem duvida recordar. continuar lendo

Concordo plenamente...

Nada justifica retirada de uma vida, na verdade neste momento, é o intuito do autor mostrar que mesmo sendo gerada de um ato tão hediondo, trata-se de uma vida. Que tem o direito de ser gerada, concebida e amada. continuar lendo

Prezada, concordo "in tontun" - com a protagonista, e deixo aqui meu apoio ao comentário feito por Pedro Henrique Oliveira.
É fácil falar e dar palpites, quero ver levar na barriga, um ser gerado pela brutalidade e violência, e depois parir um "futuro mostrinho".
O Brasil, já está infestado de tanta gente ruim, quanto mais evitar pessoas com probabilidade de ser bandido melhor, quanto aos religiosos, que gostam de imiscuir na vida alheira, porque "eles que tem maioria da chamada bancada evangélica/católica etc... não aprovam uma lei que todos os fiéis deles em caso de estupro, adotara tal criança" - pimenta no olho alheiro é sempre refresco, chega de hipocrisia.
Em nosso pais, infelizmente, nada é levado a sério, corrupção, leis fracas, bandidos comentem todo tipo de atrocidade (com impunidade), família, já não se apegam os valores morais dos nossos pais e por ai vai.
Quanto à ajuda Estatal as famílias das vítimas de violência, hoje, no Brasil, tudo é tratado com descaso e total inversão de valores, acessem o link e contribuam para país melhor.
DIREITOS HUMANOS É PARA HUMANOS DIREITOS.
Obrigado a todos.

https://secure.avaaz.org/po/petition/Senador_Pedro_Taques_ptaquessenadogovbr_aprove_PEC_30413_da_deputada_Antonia_Lucia_PSCAC/edit continuar lendo

Essa questão do confronto de direito entre uma vida potencial, a do embrião, e da mulher violentada merece ser melhor ponderada.
Por mais respeito que tenha ao valor vida, não se pode desprezar os direitos da mulher que foi colocada nessa condição por violência, que foi vítima de estupro. Ela tem direito à dignidade, direito a não desejar o nascimento do fruto de sua humilhação, direito de esquecer a violência, nisso incluído o de não ser permanente lembrada pelo fruto da dor.
Também se deve valorizar a autonomia e independência da mulher e sua ampla liberdade de decidir sobre o seu corpo e sobre sua vida.
Não é justo que terceiro (seja o Estado ou seus semelhantes) lhe imponha o encargo de suportar a gravidez, o parto, a criação e educação de uma criança que não desejou, que não planejou ter.
Uma criança criada, responsavelmente, pela mãe há de lhe criar inúmeros inconvenientes, a ponto de afetar sua vida social, afetiva, profissional.
Por tudo isso, inclino-me a prestigiar a mulher, grávida contra sua vontade. Ela pode não estar disposta a suportar que um delinquente, além de abalar seus alicerces emocionais e psíquicos, perturbe todos os seus sonhos futuros.
Cabe ao Estado zeloso e às pessoas que se preocupam com o feto "indesejado" oferecer à mãe grávida um meio termo: não extinguir a vida no ventre, mas não ser responsável pelo que não lhe deu causa. Escolha essa que caberia, exclusivamente, à mulher.
Isto é, a mulher que adotasse essa terceira via levaria a gravidez até o fim e a instituição de "apoio" receberia a criança para ofertar à adoção ou criá-lo. continuar lendo

Essa questão do confronto de direito entre uma vida potencial, a do embrião, e da mulher violentada merece ser melhor ponderada.
Por mais respeito que tenha ao valor vida, não se pode desprezar os direitos da mulher que foi colocada nessa condição por violência, que foi vítima de estupro. Ela tem direito à dignidade, direito a não desejar o nascimento do fruto de sua humilhação, direito de esquecer a violência, nisso incluído o de não ser permanente lembrada pelo fruto da dor.
Também se deve valorizar a autonomia e independência da mulher e sua ampla liberdade de decidir sobre o seu corpo e sobre sua vida.
Não é justo que terceiro (seja o Estado ou seus semelhantes) lhe imponha o encargo de suportar a gravidez, o parto, a criação e educação de uma criança que não desejou, que não planejou ter. Uma criança criada responsavelmente pela mãe há de lhe criar inúmeros inconvenientes, a ponto de afetar sua vida social, afetiva, profissional.
Por tudo isso, inclino-me a prestigiar a mulher, grávida contra sua vontade. Ela pode não estar disposta a que um delinquente, além de abalar seus alicerces emocionais e psíquicos, perturbe todos os seus sonhos futuros.
Cabe ao Estado zeloso e às pessoas que se preocupam com o feto "indesejado" oferecer à mãe grávida um meio termo: não extinguir a vida no ventre, mas não ser responsável pelo que não lhe deu causa. Escolha essa que caberia, exclusivamente, à mulher.
Isto é, a mulher que adotasse essa terceira via levaria a gravidez até o fim e a instituição de "apoio" receberia a criança para ofertar à adoção ou criá-lo. continuar lendo

O estrupo causa danos terríveis às vítimas, e qualquer meio de comunicação tem o dever social de informar as pessoas dos seus direitos, ainda que trate de um ficção e quanto aos religiosas acho que já passou da hora de evoluir, pois julgam muito e fazem muito pouco ou nada. continuar lendo

Concordo com você.
Existem outros fatores importantes a serem levados em consideração no caso de estupro. Por mais cruel que pareça, há que se pensar na vida que pode ser iniciada após essa violência. Religiosa ou não, legal ou não, uma vida é sempre uma vida e não pode ser interrompida. Ninguém pode afirmar categoricamente que a criança gerada não será uma benção no futuro. continuar lendo

Fernanda! Ao menos o autor poderia mostrar a responsabilização dos autores pelo estupro, ou seja, a prisão, para que outros marginais não venham a se aventurar a cometer tamanha crueldade contra mulheres. Tente você se colocar na situação de uma dessas vítimas...Que Deus proteja você e todas as mulheres! continuar lendo

Oi Gilmar, não estou sendo nem a favor nem contra manter a vida num caso de estupro coletivo, isso é muito pessoal, jamais eu me colocaria a tanta exposição, minha argumentação foi sobre o tema na novela, de como o autor pensou em colocar isso publicamente, é uma situação um tanto quanto complicada para lidar, porem mencionei no meu comentário as oposições que o autor iria ter caso tivesse criado um roteiro diferente;... Logicamente, toda mulher tem o direito de abortar no caso de estupro previsto na constituição, e o que vai definir o fato são questões de valores pessoais, então é impossível um julgamento da ação da mulher.. ;) continuar lendo