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21 de Agosto de 2018

Maioria das mulheres é contra cantada de rua, que pode virar até caso de polícia

Maioria das mulheres é contra cantada de rua, que pode virar até caso de polícia

DellaCella Souza Advogados, Advogado
há 4 anos

Publicado por Marcella Franco

Maioria das mulheres contra cantada de rua que pode virar at caso de polcia

Ô, lá em casa! Ei, gostosa! Se você é mulher, certamente já ouviu essas frases de estranhos alguma vez na vida. Talvez tenha, ainda, escutado coisas possivelmente mais invasivas, ou assobios e grunhidos. É algo que acontece com todas, invariavelmente. Mas há, no entanto, um ponto que diferencia uma mulher da outra nestas situações: a reação ao assédio.

Enquanto algumas não se importam e acham até lisonjeiro, outras entendem as cantadas como uma forma de violência e ofensa.

"Estas mulheres que gostam realmente existem, mas, de acordo com nossos levantamentos, são apenas 17% da população brasileira feminina", pontua a jornalista Juliana de Faria Kenski, uma das criadoras do coletivo feminista Think Olga, responsável pela campanha Chega de Fiu-Fiu, que se propõe a lutar contra o assédio sexual em espaços públicos.

Não existe um problema com quem gosta, cada uma sabe de si, mas a questão é quando o homem coloca todas as mulheres na mesma situação. Porque, para cada uma que curte a cantada, ele está humilhando outras cinco. Juliana conta que sempre se incomodou com este tipo de situação, especialmente depois de um episódio que viveu aos 11 anos de idade.

Eu voltava de uma padaria quando o motorista de um carro abriu a janela e gritou algo ofensivo. Foi muito surreal, eu nem sabia direito o que tinha sido aquilo, mas comecei a chorar. Uma senhora, então, me parou e disse para eu deixar de ser boba, porque elogio é bom. Por muito tempo, achei que tinha que aceitar, porque talvez fosse bom para mim.

A confusão de sentimentos é um ponto comum relatado entre as assediadas, bem como a dúvida sobre a responsabilidade daquela situação. Por serem alvos de cantadas desde muito cedo, as mulheres acabam se questionando se têm algum tipo de culpa pelo assédio, especialmente no que diz respeito à maneira como se vestem.

Afinal, uma peça de roupa poderia justificar e encorajar o comportamento de outra pessoa? Usar uma saia curta ou uma blusa decotada daria o direito aos homens de cantarem as mulheres na rua?

"De forma alguma", defende Carla Cristina Garcia, professora doutora em ciências sociais pela PUC de São Paulo.

A responsabilidade pelo assédio é da sociedade machista que cria essa condição para que as mulheres sejam agredidas. Devemos nos cobrir todas para não sofrermos violência? Cantadas são uma forma de abuso porque tratam a mulher como se seu corpo fosse público. Se as mulheres hoje reclamam e antes não reclamavam, é porque hoje sabem que é uma violência.

Na mesma proporção que crescem as queixas femininas, aumenta também a revolta de homens que, pelos mais variados motivos, consideram absurda a ideia de que mulheres possam se incomodar com cantadas na rua.

Maioria das mulheres contra cantada de rua que pode virar at caso de polcia

Em comentários masculinos na página do Think Olga, por exemplo, é possível ver opiniões que defendem, entre outras coisas, que mulheres que se vestem com roupas curtas "não se valorizam".

"Para os homens da sociedade ocidental, a mulher é um objeto. Sendo assim, como um objeto pode reclamar? Objeto não tem vontade", explica a professora Carla Cristina.

Em uma pesquisa realizada com 7.762 mulheres pelo coletivo feminista de Juliana Kenski, 90% das entrevistadas disseram já ter trocado de roupa por receio do assédio no lugar em que iriam. Outras 81% garantiram já ter deixado de fazer alguma coisa — sair a pé, passar em frente a uma obra etc — por medo de serem assediadas.

No entanto, o que poucas pessoas sabem — tanto homens quanto mulheres — é que aquelas que se sintam ofendidas por cantadas na rua podem até mesmo recorrer à Justiça. De acordo com o advogado criminalista Lélio Borges, mesmo se tratando de situações subjetivas, há casos em que é cabível punição, inclusive de detenção.

Se o ato é realizado em local público, mediante gestos obscenos, podemos estar diante do crime de ato obsceno, cuja punição é de três meses a um ano de detenção. Se da cantada derivam ofensas que firam a dignidade ou o decoro da vítima, estaríamos diante de um possível crime de injúria, com sanção de um a seis meses de detenção. E, ainda, uma investida que é feita em local público, de forma ofensiva ao pudor, pode configurar a prática de contravenção penal denominada importunação ofensiva ao pudor, que é apenada com multa.

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Juliana Kenski, uma das fundadoras do coletivo feminista Think Olga, que luta contra o assédio em espaços públicosMontagem/Arquivo Pessoal/thinkolga. Com


Fonte: http://www.geledes.org.br/areas-de-atuacao/questoes-de-genero/265-generos-em-noticias/23996-maioria-...

26 Comentários

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Ca pra nós, uma coisa é uma cantada bem bolada, inteligente, que se diz de frente para uma mulher após ter chegado nesta com educação e tranquilidade. Outra coisa é passar na rua, ou no carro, e chamar mulher de gostosa, "que bunda", "que abundância mermão"! Fala sério, isso é coisa de homem ignorante, sem nenhum conhecimento de mulher.
É óbvio que deve sim existir certas mulheres que até gostam deste tipo de cantada, por serem igualmente ignorantes, ou simplesmente, por isto satisfazer os seus egos, ao saber que chamam a atenção de alguém, mesmo que esse alguém seja um chulo.
Apenas consequências de um país de terceiro mundo, onde o machismo ainda está muito presente. continuar lendo

Por um mundo onde nós mulheres possamos utilizar a roupa que quisermos sem ter medo de levar cantada, de que vai aparecer algum homem e não vai "se segurar", de que não seremos estupradas. Por um mundo onde nós mulheres possamos andar na rua sem medo, que nós possamos simplesmente seguir reto nosso caminho, ao invés de desviar ao avistar pedreiros trabalhando. Direito de ir e vir sem que apareça um estranho para nos constranger! Por um mundo onde simplesmente tenhamos igualdade, não apenas de direito, mas de fato! continuar lendo

Engraçado o pensamento de alguns homens de ver a mulher como um objeto. O que achariam se essas cantadas ofensivas fossem dirigidas às suas filhas, irmãs, namoradas, mães, esposas? Uma roupa, qualquer que seja, não justifica a falta de respeito. Já ouvi cantadas que me deixaram extremamente constrangida e com medo de passar perto. Isso é coisa de pessoas não evoluídas. Coisa da idade da pedra. continuar lendo

Gays cantam homens e a maioria acha ruim, não é possível que tal ser tenha tamanha estupidez de achar que pode acontecer o mesmo com as mulheres? E não é sobre uma pessoa de outra preferência sexual, mas sim, da abordagem forçada, porque se você é homofóbico, você já está errado de qualquer jeito. Parem de ser ridículos e machistas. Rezo pra chegar o dia em que essa era ridícula criada pelos baby boomers e entre uma com uma cabeça mais aberta e racional. Pensamento arcaico. continuar lendo